História sem fim

( À uma amiga que perdeu o pai recentemente)

Dizem que o destino já estava escrito.
Por intuição escrevi eu mesmo o meu.
E as melhores páginas que criei
Ficaram encharcadas e borradas com sentimentos,
Dizendo: senti e não apenas passei por aqui.

E agora que todos pensam que coloquei o último ponto final,
Engano.
Foi apenas uma vírgula,
para meus filhos e netos continuarem a minha história.
Que nunca, nunca mesmo, terá a palavra FIM.


 

Bete Esponja não vai na segunda

Tudo começou numa quarta-feira, quando o chefe do departamento de contabilidade da indústria de antenas Zapasat decidiu realizar um happy hour para “descontrair” e promover uma suposta confraternização entre os formais colegas de sala. Isto tudo não passava de uma tentativa de dar um pouco de vida àquele fundo perdido de departamento, o oco da empresa.

Todos pensaram não e disseram sim à proposta, que prometia ser um provável unhappy hour. Não era por nada não, mas no grupo ninguém tinha afinidade e sim, no máximo, assiduidade. Ninguém falava mal ou bem. Ninguém falava. Todos vazios. Todo mundo. Ninguém.

Neste caldeirão tinha de tudo: solteiros, casados, 25, 33, 51, idéias a receber, passivos circulantes, mais um pouco de solteiros e Dona Elizabete, uma incógnita escriturária tímida de 35 anos, com passos miúdos e voz da Danuza Leão. Seu rosto lembrava a elegante moça da lata de leite condensado, mas com o seu balde cheio de mistérios.

Com formalidade em excesso respingando pela roupa, o bando escolheu em decisão unânime do chefe (um baixinho metido a enrolador de Cofins) a praça de alimentação de um Grande Shopping que tinha ali por perto para cumprir o programa. Seria na sexta, pós-expediente.

Chegou a sexta, que só Deus saberia como iria terminar. O pessoal até que foi arrumado. No fechamento do dia, Almir foi o único que conseguiu escapar, inventando um problema na saúde contábil do caixa, causado pelo vírus nemfu, que ele mesmo criou.

Depois de baterem seus pontos, o bando levou 15 minutos (de uma caminhada que só levaria 5) para chegar ao Shopping. Poucos falaram no caminho, economizando para ter o que falar logo adiante. Na chegada, o cacique anão daquela sinistra tribo contábil escolheu o meio da praça para se posicionar, querendo impor presença naquele insólito terreno. Porém, nem barulho fizeram para sentar.

O chefe pediu a primeira rodada do patrimônio líquido (chopp) por sua conta. Uma piada sem graça. Quem iria dizer não? Dona Elizabete vacilou. Não bebia. Disse sim, ao chefe, como sempre. Bucha.

Chegou o chopp. Nem brinde teve. Todos bebericaram um pouco para não chamarem a atenção. O clima estava frio. Elizabete ficou vermelha e foi a primeira a dar o segundo gole e o terceiro também. No quarto pediu pra falar. Emprestou a palavra do anão que crescia só no meio do picadeiro.

O silêncio ficou abaixo de zero. Elizabete levantou o seu copo sugerindo um brinde pela fuga do chefe da história da Branca de Neve. O homem pequeno comemorou em meio a risos e olhares assustados, pois alguém estava falando também. Todos salvaram a improvável cena na memória para a posteridade. Elizabete aproveitou a deixa e fez ainda todo mundo cantar parabéns para Andressa, a aniversariante de 20 dias atrás. Estava ficando divertido.

O clima começou a esquentar. Alguém reparou na mesa que Hugo tinha furos nas orelhas e que Vera gostava de fotografias. Todos riram. A música que embalava o ambiente da praça introduziu Zeca Pagodinho na roda. Elizabete (agora Bete) subiu na cadeira, pegou uma escova de cabelo da bolsa e começou a cantar em dueto com o virtual cantor. Passava das 20h, todos cantavam e o centro da praça brilhava e mostrava seu próprio balanço.

O grupo dividiu esquisitos e emocionados abraços na saída do Shopping, depois da novela que tinham perdido.

O chefe, entusiasmado, ofereceu carona para Bete. Ela recusou delicadamente com um não, entrou no tubo, pegou um ônibus e só foi trabalhar na terça.

O clima e a vida daquele departamento nunca mais foram os mesmos. Mudanças benvindas.
Almir, o ausente, pediu, semanas após, as contas por falta de entrosamento com a equipe.
Novos encontros foram marcados.

O pequeno chefe cresceu de verdade e virou gerente. Bete, meses depois, mudou para o Marketing, seguindo um antigo sonho.

E de lá vieram as boas novas.

Que moça do leite condensado que nada. Descobriu-se que a Elizabete, agora Bete Esponja, era uma marketeira danada. E filha predileta, quem diria, do glorioso Velho Barreiro. Salve Bete. Uh.


 
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